Contos
Enrestando
Cícero Galeno Lopes
Se o senhor toma mate, sirva-se. Se fuma crioulo, sirva-se. Mas esses assuntos
não são do meu dia, não há com quem conversar. A
gente não pratica, se é que aprendeu algum dia. Até acho
que certas falas doem. São como manga de chuva de enxurrada: são
de bonança como de malença.
Nessas coisas sou como peixe fora d'água, na terra plana. Não
tenho nem como nem que lhe responder. Minha vida é dos arredores. Me
esforço no arrimo, como faz o que joga a bocha. Mal sei das coisas que
posso e faço. A ciência do saber de tudo é coisa pra estudado.
A sabedoria duns como eu é o que disse o Martín Fierro: Deve saber
mui poco aquel que no aprendió nada. É ver um bicho, um cachorro.
Que pode saber o cachorro senão o que já lhe vem na cabeça,
o que lhe está nos instintos, o que a vida da busca faz aprender, por
força? O cachorro olha a pessoa passando de calça comprida e pensa
que aquilo que se mexe é o próprio que se move. Ele pensa, lá
no pensar dele: esse aí é mole, os lados abanando. Ele vê
a pessoa passar hoje, amanhã... O mesmo cheiro. Vai preparando a ação,
a experiência. Num certo dia, por alguma razão que só cada
um é que sabe, ele avança, pega a calça, rasga, tira um
pedaço. Pensa: aqui vou eu com um pedaço dele. Era mole mesmo,
até mais do que dava pra ver. Aquilo não tem firmeza nenhuma.
Aqui vou eu com um pedaço.
A mim me parece - ainda que mal compare - que a gente no mundão é
mais ou menos isso. Acha, pensa, examina, confirma. Acha e então proclama:
tal coisa é isso, por isso e por aquilo outro. Quem demove? Quem explica
que a parte não é o todo?
Senhor deve de pensar: mas é claro que a roupa não é
a pessoa. Nós sabemos, mas o cão diz que é. Eu retoco:
e por que não seria? Mude a roupa, mude o jeito. Examine. Vá primeiro
num auto desses que parece que nem tocam no chão. Depois, pegue uma carrocinha
velha, um cavalinho magro suado, ponha roupas de desalinho com remendos e manchas,
use chapéu velho desabado ou uma boina ruça ensebada do uso. Experimente
os dois modos. Vá ao povo, vá aonde estão as pessoas da
cidade, bem vestidas, com tratos de fala, de bancos, de sociedade. Aí
o senhor vai confirmar. Ou não? Senhor deve de estar pensando: Claro,
você está fazendo como o cachorro da sua história. Eu lhe
confirmo: é pelo mesmo conseguinte. Assim é que os homens vêem
o mundo, assim escorregamos por esse mundão sem limites. O senhor acha
que tem limites? Então o senhor vai me dizer que tem, por isso e por
aquilo e outros mais. Eu, querendo ser de acordo com o senhor, vou lhe responder
- Sim, senhor. Mas não será. Vou é ficar pensando como
o senhor está enganado. Vou ficar com pena do senhor, pensando que acha
rastro de pereá no meio das chircas. Aí os rastros são
tantos e as marcas tão iguais, que o senhor acaba pensando de novo e
se perguntando por que as coisas são tão diversas. Aí eu
vou pensar que o senhor é um homem maduro, já combinado com nosso
mundo.
Desse modo é que penso. Comadre Matilde, também conhecida por
Mazinha, e comadre Zildinha, dita também Ildinha, que tiveram casa montada,
aqui do lado, estão sempre, nas tardes, no seu mate. No verão,
na sombra das árvores, onde bate vento fresco da lagoa. No inverno, ao
lado do fogão a lenha, uma olhando pra outra, conversando das pessoas.
Sabe o que dizem? Dizem sempre quase as mesmas coisas. Uma confirma a outra.
O senhor desejando, vá ali. Elas recebem bem, são de bom trato,
acostumadas. Antes tinham muitos fregueses, bom comércio de divertimentos,
bons bailes. Era uma casa alegre, de tangos e boleros, Nélson Gonçalves
do Livramento e outros na vitrola, bem alto, até a madrugada. O mundo
delas foi quase sempre o mesmo, não dava tempo pra outros pensares. Então
isso ficou sendo o mundo pra elas. A perna da calça na boca. O senhor
deve agora de estar pensando: Claro, pois só viram isso. Eu lhe afianço:
assim também fui eu. Até acho que é assim qualquer que
seja. Vou lhe dizer: elas nem são daqui, vieram do Cacequi, ainda moças,
quando o trem fazia parada longa pra sopa quente no inverno e pro passeio na
estação, nos tempos quentes. Foi aqui que encontraram seu modo
de vida. Viram o mundo se mexendo, pararam pra ver melhor como era. O outro
mundo, de lá, de antes, não é mais mundo, é como
um sonho sonhado, que não se tem onde pegar, por onde se chegar. Sonho
se desmancha no tempo. Falar dele como, agora? Falar de que agora? Elas falam
das pessoas que foram, das pessoas que passaram, mais perto. É a perna
da calça na boca, a confirmação. Demais, ver o que mais,
agora? O cachorrinho com o pedaço de pano da calça vai se deitar,
ruminar suas certezas, envelhecer sabendo das coisas, sem esperança de
outros passantes, porque são todos iguais, todos moles, sem firmeza.
Coisas que não importam mais agora, porque o sabido fica guardado, quando
se vê na altura das pernas das calças. Se fixe nisso. Que mais
vou lhe dizer? Meus pensares se encerram nessas coisas que vejo nos bichos.
Neste lugar as pessoas são poucas. Aqui ficam os velhos, as mães
e alguns poucos pais, os defeituosos de nascença e do trabalho. Esse
pontão de mundo é quase arrodeado de água. O olhar da gente
fica enrestado pra um lado só, pra lá da lagoa que se perde de
vista. Até os cachorros aqui são por demais de dorminhocos, quem
sabe porque vêem sempre as mesmas pessoas passarem e sabem que todos são
o que parecem, pra eles.